Diga "tarot" a quem nunca abriu um baralho e a imagem que aparece é quase sempre a mesma: figuras a cores chapadas, contornos pretos, lâminas com nomes em francês antigo (LE BATELEUR, LA PAPESSE, L'AMOVREVX), naipes de paus, copas, espadas e ouros desenhados em geometria pura. É o Tarot de Marselha. É também, em rigor, o nome de um pacote pequeno e tardio que herdou a iconografia clássica do tarot impresso entre o final do século XVII e meados do século XVIII, sobretudo em Lyon e Marselha. O resto da história é mais interessante do que o nome sugere.
De Itália ao Sul de França
O tarot nasce em Itália por volta de 1440, como jogo de cartas com trunfos (em italiano trionfi), em cortes como as de Milão, Ferrara e Bolonha. As primeiras menções documentadas estão em livros de contas e em encomendas a pintores: baralhos manuscritos, iluminados, encomendados pelos Visconti e pelos Este. O Visconti-Sforza, hoje disperso por bibliotecas de Nova Iorque, Bérgamo e Milão, é o exemplo célebre.
Estes baralhos eram peças únicas. A massificação chega com a xilogravura. A partir de meados do século XV, Bolonha e Ferrara imprimem baralhos em série, e o desenho começa a estabilizar-se. No século XVI, oficinas francesas, suíças e do Piemonte herdam o padrão italiano e adaptam-no. No século XVII, o eixo desloca-se. Os impressores de Lyon, e mais tarde os de Marselha, fixam o desenho que hoje reconhecemos: linha forte, paleta restrita (vermelho, azul, amarelo, verde, carne), nomes em francês na base da carta. O Noblet, impresso em Paris por volta de 1650, é o representante mais antigo do tipo ainda razoavelmente completo. O Conver, de Nicolas Conver em Marselha em 1760, é o que serviu de modelo a Paul Marteau no século XX e, por arrastamento, à quase totalidade dos Marselhas modernos.
O nome veio depois
Aqui há uma surpresa que vale a pena registar: a expressão "Tarot de Marseille" não existia no século XVIII. Os impressores escreviam "Tarot" e ponto. A designação como categoria distinta foi cunhada por Paul Marteau, herdeiro da casa Grimaud, em 1930, quando relançou a sua edição comercial sob o título Ancien Tarot de Marseille. O nome pegou. Em poucas décadas, "Marselha" passou a designar não a cidade onde uma oficina específica imprimia cartas no século XVIII, mas uma família iconográfica inteira, com gerações de impressores em Lyon, Avignon, Besançon, Turim e Marselha propriamente dita.
O equívoco é instrutivo. O nome é de 1930. O padrão é de 1650–1760. A iconografia subjacente é italiana, do século XV. Quem hoje compra um "Tarot de Marselha" leva nas mãos um objeto cuja designação tem menos de cem anos e cuja imagem tem quase seiscentos.
A iconografia que define um Marselha
O que faz com que um baralho seja, de facto, um Marselha? Não é a cidade onde foi impresso. É um conjunto de convenções visuais bastante apertado.
Vinte e dois trunfos numerados em algarismos romanos, do I (o Bateleur) ao XXI (o Mundo), mais um sem número (o Louco). A ordem dos trunfos segue o tipo II de Dummett (1993), o chamado tipo "de Marselha", distinto dos tipos bolonhês (I) e ferrarês (III). A Justiça é VIII, a Força é XI, ao contrário da inversão tardia que Waite faria em 1909. A Papisa, o Papa, o Imperador e a Imperatriz estão lá, sem censura ecclesiástica posterior. A Casa de Deus (XVI), e não a Torre, é o nome francês da carta da queda.
Cinquenta e seis Arcanos Menores, quatro naipes (Ouros, Copas, Espadas, Paus), quatro cartas de corte por naipe (Valete, Cavaleiro, Rainha, Rei), e dez cartas numeradas. E aqui está a diferença visual mais imediata em relação ao Rider-Waite-Smith: os pips do Marselha são geométricos, decorativos, repetitivos. O Cinco de Paus é cinco paus cruzados num padrão simétrico, com folhagem entre eles. Não há um homem prestes a lutar, como em Pamela Colman Smith. A leitura dos Menores no Marselha não passa pela cena. Passa pelo número, pelo naipe, pela combinação. É uma exigência. Para quem aprendeu com listas, é um choque.
A paleta restringe-se a poucas cores chapadas, sem sombreamento. Os contornos são pretos e fortes. As inscrições aparecem em maiúsculas francesas com grafias antigas. Tudo isto é deliberado: são restrições da técnica de xilogravura colorida ao estêncil, que se tornaram identidade.
A leitura pré-esotérica
Antes de 1781 e do salão de Court de Gébelin, o tarot era, esmagadoramente, um jogo. Cartomancia com cartas de jogar regulares está documentada a partir do século XVI, e há manuscritos italianos do XVII que listam significados oraculares para baralhos de quarenta cartas. Mas a cartomancia especificamente com tarot só ganha forma sistemática com Etteilla a partir de 1785, dezasseis anos depois de ele já praticar cartomancia profissional com o baralho de piquet. Etteilla é, refira-se, contemporâneo de Court de Gébelin, não seu discípulo.
Vale a pena reter isto: o baralho de Marselha que circulava em Lyon em 1700 não era um oráculo. Era um baralho para jogar trunfos, com a iconografia que herdou de Itália. A leitura adivinhatória é projeção tardia. O facto de o desenho ter sobrevivido sem alterações maiores entre 1650 e 1900 não é prova de uma sabedoria escondida; é prova de que os impressores copiavam o que vendia, sem motivo para inovar.
Marselha hoje
O século XX trouxe-lhe duas vidas paralelas. Por um lado, o ocultismo francês: Papus em Le Tarot des Bohémiens (1889) usa-o como suporte de uma leitura cabalística que vem de Mellet e de Lévi, e Marteau em 1949 publica Le Tarot de Marseille, manual de divinação que fixou interpretações para uma geração. Por outro lado, a partir dos anos 1970, uma escola francófona reabilita o baralho de Marselha não como suporte oculto, mas como sistema de leitura estrutural. Alejandro Jodorowsky, no La Voie du Tarot com Marianne Costa, propõe uma leitura pelos olhares, eixos, números e direções, sem recorrer a correspondências esotéricas. Philippe Camoin, herdeiro da casa Conver, restaurou o desenho original e publicou um Marselha "Camoin-Jodorowsky". Yoav Ben-Dov, em Israel, fez o mesmo com o Conver em Tarot , The Open Reading.
Porque alguns professores recomendam o baralho de Marselha a quem começa? Pela mesma razão que torna o baralho de Marselha aparentemente difícil. Os pips geométricos não dão a interpretação ao leitor. Forçam-no a deduzi-la a partir da estrutura: que número é, em que naipe, em que tiragem, ao lado de quê. Isto trava o reflexo de procurar a definição no livro e obriga a pensar. Quem aprende o baralho de Marselha bem aprende a ler. Quem aprende o Rider-Waite-Smith primeiro aprende, muitas vezes, a reconhecer cenas. Não é o mesmo trabalho mental. Sobre as diferenças, vale o contraste com o Rider-Waite-Smith, que é um sistema, não uma evolução.
"O baralho de Marselha não esconde nada. Mostra tudo, em geometria. É o leitor que tem de saber olhar."
Estudar o baralho de Marselha a sério implica três passos: ler a iconografia trunfo a trunfo, compreender a estrutura numérica e elemental dos Menores, e treinar a leitura por combinações sem recorrer a tabelas. É um percurso longo. É também um percurso reversível: quem o fizer pode depois ler RWS com olhos novos e perceber o que Pamela Colman Smith ilustrou, em 1909, sobre uma gramática que já existia. O contrário acontece com menos frequência. Quem começa por listas raramente regressa à estrutura.
O Curso Fundamentos da Delfos parte daqui: do baralho antes do oráculo, da estrutura antes do significado. Quem queira ver onde o caminho começa, encontra-o em Cursos.
Resta a pergunta que ninguém costuma fazer. Porque importa o baralho de Marselha hoje, num mercado dominado por baralhos contemporâneos com arte deslumbrante e guias incluídos? Porque é o teste mínimo. Quem consegue ler um Marselha consegue ler qualquer baralho. Quem não consegue ler um Marselha, lê o livro que veio na caixa.