O baralho mais popular do mundo tem pouco mais de um século. Foi publicado em Londres em dezembro de 1909 pela Rider & Co., desenhado por Pamela Colman Smith em colaboração com Arthur Edward Waite, e popularizou cenários narrativos em todas as cartas — uma prática que existia desde o Sola-Busca italiano de cerca de 1491 (estudado por Smith no British Museum), mas que só com o RWS se tornou norma. É um sistema poderoso. Também é um sistema moderno, não a verdade original do tarot.

Antes do Rider-Waite-Smith, os Arcanos Menores eram essencialmente cartas de jogar: dez cartas numeradas e quatro figuras por naipe, com padrões decorativos e sem cenas figurativas. O leitor que quisesse interpretar o Cinco de Espadas tinha de confiar na compreensão numérica e na tradição oral. Não havia imagem de um homem a recolher espadas derrotadas. Não havia cena de conflito. Apenas o número cinco e o naipe.

Pamela Colman Smith

Durante quase um século, os créditos foram desiguais. "Waite designed, Smith illustrated", repetiam os manuais, e o nome de Smith aparecia em letra pequena na capa, quando aparecia. A revisão começa com Mary K. Greer e culmina em Stuart R. Kaplan, Pamela Colman Smith: The Untold Story (2018), volume de quase quatrocentas páginas que junta cartas, diários, fotografias, manuscritos. A imagem que de lá sai é outra.

Pamela Colman Smith nasceu em Londres em 1878, de mãe jamaicana e pai americano, e passou a infância entre Manchester, Brooklyn e Kingston. Aos vinte e poucos anos já tinha um currículo improvável: cenografia para o Lyceum Theatre com Henry Irving e Ellen Terry, ilustrações para edições populares de folclore caribenho, capas para a Stieglitz Gallery em Nova Iorque, exposições próprias. Era sinestésica: dizia ver cor quando ouvia música, e pintava sinfonias de Beethoven e Schubert como composições visuais. Era também sufragista ativa, próxima do círculo de Christabel Pankhurst, e católica praticante a partir de 1911. Não era a auxiliar de Waite. Era uma artista plena, com encomenda.

A investigação de Greer e Kaplan estabelece que Waite forneceu instruções estreitas para os 22 Arcanos Maiores, onde o programa iconográfico da Golden Dawn era inegociável, e deu a Smith latitude muito maior para os 56 Arcanos Menores. A composição cénica, o gestual, as paletas, a humanidade dos rostos, são dela. O Pictorial Key to the Tarot, que Waite publicaria em 1910 como manual companheiro, descreve os Maiores em detalhe e despacha os Menores em fórmulas curtas. A diferença reflete-se na atribuição. O sistema é de Waite. As cinquenta e seis cenas que tornaram o baralho mundial são de Smith.

Pamela Colman Smith recebeu pagamento único pelo trabalho, sem royalties, e morreu pobre em 1951, em Bude, na Cornualha. Os bens foram leiloados para pagar dívidas. Os baralhos continuam a vender, sem interrupção, há cento e dezasseis anos.

A revolução visual

O salto técnico de 1909 é claro. Antes do RWS, os Arcanos Menores em quase todas as tradições europeias eram pip cards: cartas com o número de espadas, copas, paus ou ouros pintados em padrão geométrico, sem cena figurativa. Um Cinco de Espadas mostrava cinco espadas em arranjo simétrico. Cabia ao leitor deduzir significado a partir do número e do naipe. A exceção notável é o baralho Sola-Busca, impresso em Ferrara por volta de 1491, que ilustrou todas as cartas com figuras humanas e narrativas próprias. Smith estudou-o no British Museum, onde fotografias do baralho estavam acessíveis desde 1907. Não copiou. Absorveu o princípio: a carta numerada pode contar uma história.

O Dois de Copas mostra um casal a trocar copas, com um caduceu alado entre eles. O Três de Paus mostra um homem a observar navios no porto, de costas para o espectador, peso descansado numa lança. O Sete de Espadas mostra um ladrão a fugir com armas pelo acampamento. Cada carta tornou-se miniatura, cena congelada, história em imagem. A inovação tornou o baralho acessível a quem não tinha formação esotérica. Um iniciante podia olhar para o Cinco de Pentáculos e ver imediatamente pobreza, frio, exclusão, sem precisar de memorizar correspondências cabalísticas. A imagem falava por si.

A acessibilidade tem custo. Ao tornar o significado visualmente óbvio, o RWS tornou-o também mais rígido. O Cinco de Pentáculos mostra mendigos na neve, debaixo de um vitral iluminado que ignoram. Pobreza material, doença, isolamento. E se o contexto da pergunta sugerir uma leitura diferente, uma escolha consciente de afastamento, por exemplo? A imagem forte dificulta a flexibilidade. O leitor experiente do baralho de Marselha tem um Cinco de Ouros como número e elemento, e improvisa. O leitor do baralho Rider-Waite-Smith tem mendigos na neve, e os mendigos não se vão embora.

A linhagem da Golden Dawn

Waite não era um editor de cartas. Foi iniciado na Hermetic Order of the Golden Dawn em 1891, atingiu graus avançados, fundou em 1903 a sua própria fração, a Independent and Rectified Rite, depois das cisões internas que dilaceraram a ordem original. A Golden Dawn, fundada em 1888 por William Wynn Westcott, Samuel Liddell MacGregor Mathers e William Robert Woodman, é o nó onde se cruzam todas as linhas do tarot esotérico moderno. Mathers, em particular, sistematizou as correspondências: cada trunfo recebeu uma letra hebraica (recuperando a intuição de Mellet via Lévi), um signo astrológico ou planeta, um elemento. Cada naipe recebeu um elemento (Ouros-Terra, Copas-Água, Espadas-Ar, Paus-Fogo). Cada carta numerada recebeu uma posição sefirótica na Árvore da Vida. O sistema é coerente, vasto, internamente articulado, e completamente posterior ao baralho original.

O RWS codifica este sistema nas suas imagens. O Mago levanta uma vara para o céu e aponta outra para a terra, traduzindo o princípio hermético "como em cima, em baixo". A Sacerdotisa senta-se entre duas colunas, Jachin e Boaz, do Templo de Salomão, com a letra hebraica gimel implícita no véu de romãs. A Temperança verte água entre duas taças, num gesto da iconografia alquímica. O Sumo Sacerdote (renomeado por Waite a partir do Papa medieval, em 1909, para neutralizar a referência católica) tem chaves cruzadas e três coroas. As correspondências são intencionais. Waite sabia exatamente o que estava a fazer. O que estava a fazer, porém, era publicar a doutrina cifrada da Golden Dawn, que herdara cento e cinquenta anos de camadas, em última análise a reinvenção do tarot por Court de Gébelin.

"O Rider-Waite-Smith é o tarot mais influente do século XX. Não é o tarot original. A diferença é crucial."

O contraponto: o baralho de Marselha

Para perceber o que o Rider-Waite-Smith faz, convém olhar para o que não faz. No Cinco de Ouros do baralho de Marselha (Conver, 1760), vê-se cinco moedas dispostas em padrão geométrico com um motivo floral ao centro. Não há mendigos. Não há neve. Não há vitral. O leitor olha para um número e um elemento, e constrói. Tem de saber a aritmética simbólica do cinco como crise no meio do processo, a textura do naipe de Ouros como manifestação material, a posição da carta na tiragem, a pergunta do consultante. A imagem é silenciosa. O leitor é eloquente.

Quem escolhe trabalhar com Marselha defende esta exigência. A carta não fornece a leitura, dá o material para que o leitor a construa. A escola francófona contemporânea (Jodorowsky, Camoin, Ben-Dov) sustenta que o pip card protege o leitor da projeção visual da ilustração, e mantém o tarot mais próximo da sua mecânica medieval de jogo. A escola anglófona (Greer, Pollack, DuQuette) sustenta que a imagem narrativa enriquece a leitura psicológica. Não há resposta certa. Há ferramentas diferentes para perguntas diferentes.

Ler RWS sem se tornar refém da imagem

Saber que o RWS é um sistema do início do século XX permite usar o baralho com maior consciência. Quando vemos o Louco a caminhar para um precipício com um cão aos saltos, sabemos que a imagem é de 1909, e não a do Matto quattrocentista. O Louco medieval era o tolo de corte, o excluído da hierarquia. O Louco do RWS é o viajante espiritual, o iniciante na jornada. Mesma carta. Camadas distintas, sobrepostas.

O leitor experiente do RWS aprende três disciplinas que evitam a dependência da cena. Primeiro, a leitura numérica e elemental que vem da Golden Dawn: um Cinco é crise no meio do processo, Ouros é Terra, portanto Cinco de Ouros é crise material, antes de ser mendigos na neve. Segundo, a leitura posicional na tiragem, que não cabe em lista de significados nenhuma. Terceiro, o exercício deliberado de ignorar a primeira leitura visual e descer ao símbolo: tapar com o dedo a cena, ficar com número e naipe, ver o que diz, depois reabrir.

Comprar um RWS é fácil. Está em qualquer livraria, da Bertrand ao quiosque do aeroporto. O difícil, e muito mais útil, é olhar para a carta e ver onde acaba Pamela Colman Smith, onde acaba Waite, onde acaba Mathers, e onde começa o jogo de Bianca Maria Visconti.