Antes do mistério, antes do esoterismo, antes dos significados, havia um jogo de cartas. O tarot surgiu no norte de Itália por volta de 1440 como passatempo de corte. Os trunfos, as figuras, a sequência: tudo isso fazia parte de uma mecânica lúdica. Não de um sistema oculto.
As primeiras referências documentadas aparecem em registos fiscais e proibições de jogo nas cidades da Lombardia e da Emilia-Romanha. Em 1442, a chancelaria de Leonello d'Este, marquês de Ferrara, manda pagar quatro pares de cartas de trionfi ao pintor Jacopo Sagramoro. O lançamento ficou em livro de contas e ali permaneceu até a historiografia moderna o exumar. Não há menção a adivinhação. Não há menção a sabedoria antiga. Há contabilidade, pagamento por unidade, regras de jogo.
O antes do tarot
Há uma camada anterior que convém referir. Os quatro naipes do tarot (Espadas, Paus, Copas, Ouros) não foram inventados em Itália. Vieram de um baralho de 56 cartas de origem mameluca, que entra na Europa pela Espanha no final do século XIV. Em Itália estabilizou-se como baralho ordinário de jogo, sem qualquer pretensão simbólica. Por cima desse baralho preexistente, alguém, algures entre os anos 1430 e 1440, acrescentou vinte e duas figuras alegóricas e um Louco. Esse acréscimo é o tarot.
O primeiro vestígio talvez seja anterior a Ferrara. Por volta de 1418–1425, Marziano da Tortona compõe para Filippo Maria Visconti, duque de Milão, um deck com dezasseis deidades clássicas organizadas em quatro ordens, com texto explicativo em latim. Não é ainda o tarot que reconhecemos, faltam-lhe os 22 trunfos canónicos, mas é o protótipo: cartas hierárquicas que sobrepunham uma camada figurativa ao baralho de jogo. A ideia estava no ar.
Os Visconti-Sforza
Os baralhos mais antigos que sobreviveram são os Visconti-Sforza, produzidos em Milão entre 1450 e 1460 para o duque Francesco Sforza e a sua mulher Bianca Maria Visconti. Quinze conjuntos parciais espalhados por museus em Bérgamo, Nova Iorque, Milão. Cartas grandes, pintadas à mão, fundos de folha de ouro polida, indumentária da corte milanesa, brasão dos Sforza no escudo do Cavaleiro de Paus. Foram encomendadas para um casamento ducal e para a contemplação privada de uma casa que podia pagar pintores como Bonifacio Bembo. Não são oráculos. São objetos de luxo. Pesam na mão.
Estes baralhos não vêm com manual de leitura. Vêm com regras de vaza implícitas, partilhadas com qualquer corte italiana do mesmo século.
Como se jogava
O tarot original era um jogo de vazas com trunfos. Quatro naipes, dez números, quatro figuras de corte (Valete, Cavaleiro, Rainha, Rei) por naipe, fazem o baralho ordinário de 56 cartas. Os 22 trunfos (mais o Louco) entram como naipe extra permanente, sempre superior. Quem jogasse um trunfo numa vaza dominada por um naipe comum levava a vaza; quem jogasse um trunfo mais alto sobre outro trunfo levava-a também. A hierarquia entre trunfos era fixa e tinha de ser memorizada, pois as próprias cartas não traziam números pintados nas primeiras versões.
O Louco tinha estatuto à parte. Não vencia vaza nenhuma. Funcionava como Escusa: o jogador podia jogá-lo em vez de seguir naipe ou cobrir trunfo, e a carta saía do tapete mas regressava à sua mão para a contagem final. Uma carta que escapa às regras enquanto todas as outras as obedecem. Já nessa altura a figura desafinava do sistema.
Três ordens, três cidades
Michael Dummett, em Il Mondo e l'Angelo (1993), mostrou que existiam três ordens regionais distintas para os 22 trunfos. A ordem A, da Bolonha. A ordem B, de Ferrara. A ordem C, de Milão, que viria a tornar-se padrão pelo simples facto de ser a usada nos baralhos exportados para França. A diferença não é cosmética. A Justiça aparece numa posição em Bolonha, outra em Ferrara, outra em Milão. O Mundo é o trunfo mais alto nas três, mas o que está logo abaixo varia. Cada cidade tinha o seu jogo, com a sua hierarquia, e os jogadores de Bolonha sabiam que não jogavam o mesmo tarot dos primos ferrareses.
Esta variação tem uma consequência simples: não existe uma sequência única, original, dos Arcanos Maiores. A "ordem do tarot" que os manuais esotéricos do século XIX tomaram como cânone é apenas uma das três, fixada pela exportação. A hierarquia dos trunfos, na verdade, são hierarquias no plural.
Da palavra trionfi à palavra tarot
A terminologia também tem cronologia. No século XV, o jogo chama-se trionfi, dos triunfos romanos que serviam de modelo iconográfico aos cortejos alegóricos. No início do século XVI, aparece o termo tarocchi, de etimologia ainda discutida. Em meados do século XVII, o jogo já circula em França como tarot. Três palavras para um mesmo objeto que viajou de norte para sul de Itália, atravessou os Alpes e mudou de língua.
Em nenhuma destas três etapas o jogo é confundido com oráculo. Em Veneza imprime-se. Em Bolonha simplifica-se em tarocchino de 62 cartas. Em França, Jean Noblet abre as suas placas de madeira em Paris por volta de 1650, e quase um século depois, Nicolas Conver imprime em Marselha o baralho de 1760 que fixa o padrão hoje conhecido como Marselha (nome cunhado pelo fabricante Paul Marteau, da Grimaud, apenas em 1930). O jogo é jogo. Os fabricantes de cartas pagam impostos como qualquer artesão.
A transformação tardia
A associação do tarot a sistemas esotéricos só começa no final do século XVIII, mais de trezentos anos depois da sua criação. Antoine Court de Gébelin, em 1781, foi o primeiro a argumentar publicamente que o tarot continha uma sabedoria antiga, especificamente egípcia. No mesmo volume, o Comte de Mellet acrescenta as primeiras correspondências com letras hebraicas. Etteilla, cartomante profissional desde 1770 com o baralho de piquet, adota a moldura egípcia em 1785 e estende-a ao tarot. Em três quartos de século, Lévi sistematiza a leitura cabalística. Papus fecha o sistema. A Golden Dawn ritualiza-o. Waite e Smith dão-lhe imagem em 1909. Crowley reescreve-o em 1944.
Cada uma destas camadas vale o que vale como obra interpretativa. Algumas são sofisticadas. Nenhuma é a origem.
O que continuou a jogar
Enquanto Paris descobria o Egipto nas cartas, os italianos, os franceses do sul e os centro-europeus continuaram simplesmente a jogar. O tarocchino bolonhês sobreviveu até hoje em cafés. O tarot francês de 78 cartas é desporto federado, com torneios nacionais e uma associação que publica regulamentos. O königrufen austríaco e o cego dinamarquês são variações regionais com séculos de jogo contínuo. Em qualquer destas mesas, ninguém pergunta o que significa a Morte. Pergunta-se quem tem o Vinte e Um, que vale mais pontos.
"O tarot moderno é várias camadas sobrepostas: jogo, tradição visual, reconstrução esotérica, sistemas interpretativos. Confundir as camadas é confundir o objeto."
Porque isto importa
Saber que o tarot começou como jogo não diminui o seu valor como ferramenta interpretativa. Pelo contrário. Permite ler as cartas com maior precisão. Quando se lembra que o Louco era originalmente o Matto, o bobo que escapava à vaza, a sua posição marginal num spread ganha um peso outro. Quando se lembra que a Morte aparecia entre o Pendurado e a Temperança numa cadeia alegórica medieval, a carta deixa de ser apenas etiqueta de transformação e volta a ser uma figura entre figuras, com vizinhos que a contextualizam.
Estrutura antes de interpretação. História antes de crença. Sem esta base, qualquer leitura assenta em pressupostos que datam de 1781, não de 1440. Convém saber a diferença.
Da próxima vez que abrir o baralho, pergunte: estou a olhar para o objeto que Bianca Maria Visconti tinha na mão de manhã, ou para a fantasia que Court de Gébelin colou por cima de tudo numa noite parisiense? A resposta honesta é, quase sempre, a segunda. E é precisamente por isso que vale a pena conhecer a primeira.