A sequência dos Arcanos Maiores tem ordem. Cada trunfo ocupa um lugar numa cadeia que sobe do Pagão ao Mundo, passando pelo Papa, pelo Amor e pela Morte. Esta hierarquia reflete uma visão do mundo medieval, e não uma jornada espiritual universal. Perceber a diferença é o início de tudo o resto.
Michael Dummett, em Il Mondo e l'Angelo (1993), demonstrou de forma definitiva que a ordem segue uma lógica interna coerente. São vinte e dois degraus de uma escala que vai do mais baixo ao mais alto, do mais terreno ao mais celestial, do caos à ordem. Não vinte e duas figuras soltas que algum esoterista do século XIX decidiu organizar por capricho.
Três ordens, não uma
Convém começar por dissolver o pressuposto mais comum, que diz que existe uma única sequência canónica dos trunfos. Não existe. Dummett identificou três ordens regionais distintas, contemporâneas no século XV, todas vivas em paralelo: a ordem A, em Bolonha; a ordem B, em Ferrara; a ordem C, em Milão. As três coincidem em vários pontos, divergem noutros, e a divergência tem consequências interpretativas. Na ordem milanesa, a Justiça está perto do topo; na bolonhesa, está no meio, na vizinhança das outras virtudes; na ferrarense, ocupa posição diferente das duas. O Mundo é sempre o trunfo mais alto, mas o que vem logo abaixo, e a ordem das virtudes, dependem da cidade.
Os baralhos que chegaram a França no século XVI seguiram o tipo milanês, e foi essa ordem que se fixou nos baralhos de Marselha e, mais tarde, nos manuais esotéricos. O cânone que se ensina hoje é, portanto, uma das três tradições, não a tradição. O jogo nasceu em três cidades, e cada uma tinha as suas regras.
A escala dos trunfos
Fixemo-nos na ordem milanesa, por ser a mais difundida. No topo, o Mundo, entendido como ordem divina e criação perfeita, não como universo em sentido cósmico. Imediatamente abaixo, o Anjo (ou o Julgamento), que representa a intervenção divina na história humana. Depois o Sol, a Lua, a Estrela: os corpos celestes que governam o tempo, as marés, as colheitas.
A meio da sequência aparecem três das quatro virtudes cardinais medievais: a Temperança, a Força, a Justiça. A quarta, a Prudência, está conspicuamente ausente. Junto às virtudes posiciona-se a Roda da Fortuna, que não é virtude, mas força externa: representa a instabilidade inerente à condição humana, a impossibilidade de controlar completamente o destino. Mais abaixo, as figuras sociais: o Papa, o Imperador, a Imperatriz, o Amoroso. Estas figuras desenham os pilares da ordem medieval, espiritual e temporal, masculino e feminino. O Pagão (também chamado Mago em traduções tardias), no fundo da escala, é o exterior a esta ordem, o que ainda não foi integrado.
A Prudência ausente
O conjunto das virtudes cardinais, na tradição cristã medieval que vem de Tomás de Aquino e antes dele de Platão, são quatro: Prudência, Justiça, Fortaleza, Temperança. Os tarots quattrocentistas mostram três. Falta uma. A omissão é peculiar e tem ocupado historiadores desde que Gertrude Moakley, em The Tarot Cards Painted by Bonifacio Bembo (1966), a notou. Dummett retomou-a em 1980 e ela continua sem solução definitiva.
A hipótese mais persuasiva é a de Moakley: a Prudência foi absorvida pelo Eremita, que nos baralhos mais antigos não segura um candeeiro mas uma ampulheta. A ampulheta é o atributo iconográfico tradicional da Prudência (a virtude que mede o tempo da deliberação) muito antes de ser atributo do Tempo. Quando o objeto na mão do Eremita migrou de ampulheta para lanterna, perdeu-se a marca prudencial, e a carta passou a ser lida como sabedoria solitária e introspeção. A virtude continua lá. Está soterrada sob duzentos anos de releitura. Outras hipóteses circulam, nenhuma fecha o caso. O enigma permanece, e é precisamente o tipo de pergunta que distingue quem estuda o tarot de quem o consome.
Os naipes e as suas cortes
A palavra "hierarquia" não se aplica apenas aos trunfos. Cada um dos quatro naipes (Espadas, Paus, Copas, Ouros) tem a sua própria escala: dez cartas numeradas, do Ás ao Dez, mais quatro figuras de corte. As figuras de corte são Valete, Cavaleiro, Rainha, Rei, nessa ordem ascendente nos baralhos italianos do século XV. Ao contrário do baralho francês de jogo moderno, que reduziu o número para três figuras (Valete, Rainha, Rei), o tarot manteve as quatro.
A hierarquia dentro do naipe é dupla. Há a aritmética, do Ás ao Dez, que reflete uma progressão simbólica do início ao excesso. E há a social, do Valete ao Rei, que reflete a cadeia feudal: o pajem que serve, o cavaleiro armado, a rainha consorte, o rei soberano. Quem joga sabe que um Rei de Espadas leva a vaza face a uma Rainha de Espadas, mesmo que o desenho seja menos imponente. Quem lê, beneficia de saber o mesmo: numa tiragem, um Valete e um Rei do mesmo naipe não dizem a mesma coisa, ainda que o elemento seja o mesmo.
(Note-se de passagem: a associação entre naipes e elementos clássicos — Ouros-Terra, Copas-Água, Espadas-Ar, Paus-Fogo — não é medieval. Foi sistematizada pela Hermetic Order of the Golden Dawn no final do século XIX. Os baralhos quattrocentistas usavam os naipes como naipes de jogo, sem mais. A correspondência elemental é um sistema interpretativo posterior, útil dentro do seu próprio quadro, mas que não convém confundir com a estrutura original.)
O Louco fora da sequência
O Louco (o Matto, nos baralhos italianos) ocupa uma posição peculiar. Não tem número. Não pertence à hierarquia dos trunfos. É o excêntrico, o tolo de corte, o que escapa às categorias. No jogo funcionava como a Escusa: podia ser jogado em qualquer vaza para dispensar o jogador de seguir naipe ou cobrir trunfo. Saía da vaza, regressava à mão, contava para os pontos no fim.
A posição marginal diz muito. O Louco encarna o que a ordem social não consegue absorver, o resto que permanece fora do sistema. Quem o lê como viajante espiritual numa jornada de iluminação está a aplicar uma camada interpretativa do início do século XX (a leitura é de Waite) a uma carta medieval.
"A hierarquia dos trunfos não é uma escada para o céu. É um mapa da ordem social e cósmica tal como era compreendida no século XV."
Um exemplo: a Torre na cadeia
Considere uma tiragem de três cartas em que a carta central é a Torre. Quem leu pela lista vê "ruína súbita" e fica por aí. Quem leu pela hierarquia pergunta primeiro: que cartas a precedem e a seguem na cadeia, e que cartas a acompanham na tiragem?
Na sequência canónica, a Torre vem depois do Diabo e antes da Estrela. Não é ruína isolada. É o colapso de uma estrutura artificial (o Diabo, a servidão consentida) que abre espaço à orientação celeste (a Estrela). Agora suponha que numa tiragem a Torre aparece entre o Imperador e a Estrela: lê-se como o desmoronar de uma autoridade construída, seguido de orientação. Suponha que aparece entre a Lua e o Diabo: lê-se como o colapso que devolve a pessoa à confusão e à servidão, sem reconstrução. Mesma carta. Leitura oposta.
A diferença entre etiqueta e significado estrutural está no centro de porque as listas de significados falham. A estrutura dá ao leitor uma gramática. As listas dão um glossário. Pode-se falar uma língua com glossário. Custa.
O que muda quando se sabe
Ler pela hierarquia transforma o trabalho. Cada carta deixa de ser entidade independente e passa a ser posição numa cadeia, com vizinhos próximos e distantes que a contextualizam. A Morte deixa de ser etiqueta de mudança e volta a ser figura medieval entre o Pendurado e a Temperança, com a foice das danças macabras. O Eremita ganha de novo a ampulheta. A Estrela orienta na sequência das luzes celestes, e o Sol que se segue é a sua confirmação, não a sua repetição. A camada egípcia importada em 1781 sai da frente, e o que está por baixo respira.
Quem aprende os significados antes da estrutura aprende palavras soltas em vez de uma língua. A ordem certa é a outra. Estrutura primeiro. O resto vem por arrasto.