Quem entra numa livraria a pensar comprar o primeiro baralho topa quase sempre com dois nomes: o Tarot de Marselha, austero, com pips geométricos e tipografia francesa antiga, e o Rider-Waite-Smith, mais conhecido como Rider-Waite, narrativo, com cenas em todas as cartas. O olhar puxa para o segundo. O preço empurra para o segundo. Os manuais de iniciação recomendam o segundo. E mesmo assim alguns professores recomendam o primeiro. A pergunta "qual escolher" aparece tão depressa que vale a pena reconhecer que está, à partida, mal formulada.
A pergunta errada
"Qual é o melhor baralho de tarot" assume que existe um. Não existe. O baralho de Marselha e o Rider-Waite-Smith pertencem a tradições diferentes, com pressupostos diferentes, e exigem leituras diferentes. Pedir-lhes a mesma coisa é como perguntar se um piano é melhor do que um violino. A pergunta útil é outra: que tipo de leitor quero ser e qual baralho serve esse tipo de leitor. A resposta varia com o consultante, com a formação prévia, com a relação com a imagem e com a paciência disponível para um primeiro ano longo.
Há quem responda invocando idade ou pureza histórica. O baralho de Marselha é mais antigo, logo é "mais autêntico". Não é argumento. O próprio baralho de Marselha foi fixado em Lyon e Marselha entre 1650 e 1760, e o nome só lhe é dado em 1930 por Paul Marteau. O Rider-Waite-Smith é mais recente, logo é "menos sério". Também não é argumento. Pamela Colman Smith e Arthur Waite produziram em 1909 uma das maiores obras de simbologia visual do século XX, e a contribuição interpretativa de Pamela foi, segundo Mary Greer e Stuart Kaplan (2018), substancialmente maior do que a tradição lhe reconheceu durante décadas. Os dois baralhos são sérios. São séries diferentes de problemas.
O caso do baralho de Marselha
O baralho de Marselha é o baralho da estrutura. Vinte e dois trunfos com a ordem clássica (Justiça VIII, Força XI), nomes em francês antigo, paleta restrita, contornos pretos. Cinquenta e seis Menores com pips geométricos: o Cinco de Paus é cinco paus cruzados num padrão simétrico, sem cena. Para quem chega de fora, parece pobre. Para quem aprende a ler, é a opção que mais devolve ao leitor.
A ausência de cena nos Menores tem consequências pedagógicas. Quem tira um Cinco de Paus num baralho de Marselha não vê uma luta. Vê cinco paus. Tem de derivar o significado a partir do naipe (Paus: trabalho, iniciativa, gesto produtivo) e do número (Cinco: crise no meio do processo). Junta. Crise no domínio da iniciativa, atrito no trabalho. A interpretação vem da estrutura, não da imagem. Em quem aprende, isto produz músculo. Em quem desiste, produz frustração.
A escola francófona moderna (Jodorowsky e Costa, Camoin, Ben-Dov) deu ao baralho de Marselha uma metodologia de leitura por olhares, eixos, direções e relações entre cartas vizinhas, sem recorrer a correspondências cabalísticas ou elementais. Quem queira ler o baralho de Marselha pela tradição esotérica francesa do XIX pode também: Papus, Marteau, Wirth oferecem essa via. Não é obrigatório. A leitura puramente estrutural é suficiente. E é, para muitos, a mais interessante.
O custo: curva de aprendizagem longa. Sem cenas para apoiar a memória, os primeiros meses são desconfortáveis. A literatura em português é escassa; a francófona e a anglófona dominam. Quem não lê francês fica limitado a três ou quatro traduções e a uma comunidade pequena.
O caso do Rider-Waite-Smith
O Rider-Waite-Smith é o baralho da narrativa. Pamela Colman Smith, em colaboração com Waite, ilustrou cenas em todas as setenta e oito cartas, incluindo os Menores: o Cinco de Copas tem uma figura encapuçada de costas perante três taças caídas, o Dez de Espadas tem um corpo prostrado com as dez lâminas espetadas nas costas, o Sol tem uma criança nua a cavalo num cavalo branco diante de girassóis. Cada carta é uma cena lida em segundos. O baralho está construído para ser legível.
Esta legibilidade tem origem precisa. Waite era membro da Hermetic Order of the Golden Dawn (fundada em 1888), e o sistema simbólico que está por trás do RWS é o sistema da Golden Dawn: correspondências elementais (Ouros=Terra, Copas=Água, Espadas=Ar, Paus=Fogo, fixadas por Mathers no final do XIX), atribuições cabalísticas, decãos astrológicos. Sob a cena, há andaime. Quem lê Waite (The Pictorial Key to the Tarot, 1910) percebe o andaime. Quem só usa o baralho como dicionário visual fica com a cena sem o sistema.
A vantagem para quem começa é evidente. A bibliografia é enorme, em inglês e cada vez mais em português. Há tutoriais para tudo. As cenas servem de muleta enquanto o leitor não tem ainda a estrutura. O primeiro ano é mais rápido.
O custo é também conhecido. A cena pode tornar-se prisão. Quem aprende o RWS por cenas e nunca regressa à estrutura por baixo lê sempre a mesma coisa: o Dez de Espadas é "fim", o Cinco de Copas é "luto", a Torre é "ruína". As palavras-chave colam-se às imagens e produzem leituras previsíveis. As listas de significados falham aqui com particular eficácia.
Quando cada um faz sentido
Quem está habituado a pensar por estrutura, simetria, eixos, relações formais (leitores com formação em matemática, engenharia, filosofia analítica, música clássica) tende a sentir-se mais em casa no baralho de Marselha. A ausência de cena não os incomoda. A geometria devolve-lhes o tipo de raciocínio que já praticam. A consagração da escola francófona como referência intelectual reforça este caminho.
Quem pensa por imagem, por cena, por narrativa (leitores com formação em literatura, terapia, artes visuais, psicanálise) tende a respirar mais facilmente no Rider-Waite-Smith. A cena de Pamela dá-lhes matéria para projeção, associação livre, leitura simbólica em modo psicológico. A bibliografia anglo-saxónica (Greer, Pollack, Bunning) está toda construída neste idioma.
Não há mérito numa preferência ou na outra. Há ajuste.
Caminho recomendado: comparar a mesma carta nos dois
Antes de comprar, faça um exercício barato. Compare a mesma carta no baralho de Marselha e no Rider-Waite-Smith. Pegue, por exemplo, no Cinco de Ouros (Five of Pentacles, no Rider-Waite-Smith).
No baralho de Marselha: cinco moedas dispostas em geometria simétrica, com florais ou volutas a preencher os intervalos. Não há narrativa. O leitor deduz: Ouros (matéria, troca, recursos) + Cinco (crise no meio do processo) = crise no plano material, atrito nos recursos, dificuldade financeira ou de circulação de bens. A interpretação é genérica e abre-se a vários cenários concretos da vida do consultante.
No Rider-Waite-Smith: duas figuras caminham na neve, em frangalhos, uma de muletas, perante uma janela de igreja iluminada por cinco pentagramas. A cena é específica. Pobreza, exclusão, mas com luz visível atrás. O leitor não deduz, reconhece. A interpretação é mais imediata mas também mais estreita: a janela iluminada que ninguém vê é uma adição que o baralho de Marselha não tem.
A mesma carta, lida nos dois baralhos, produz duas leituras complementares. Uma estrutural, aberta, austera. Outra narrativa, fechada, dramática. Se a primeira lhe parece mais útil, comece pelo baralho de Marselha. Se a segunda lhe parece mais clara, comece pelo Rider-Waite-Smith. Esta é, em rigor, a única forma honesta de escolher antes de ter passado meses com o baralho.
Não tem de escolher só um
A maioria dos leitores sérios acaba por usar os dois. Não em simultâneo, e não no primeiro ano. A profundidade vem da escolha. Quem dispersa entre três baralhos no primeiro ano não aprende nenhum dos três. Mas depois de dois ou três anos a estudar um a sério, abrir o outro torna-se um exercício esclarecedor. Ver como a estrutura do baralho de Marselha se traduziu em cena no Rider-Waite-Smith é uma das melhores aulas de tarot que existem, e a mais barata: basta ter os dois baralhos abertos lado a lado e o tempo para os comparar carta a carta.
"Comece por um e estude-o a sério durante um ano. No segundo ano, abra o outro. Verá que é o mesmo baralho a dizer coisas diferentes na mesma língua."
A Delfos ensina os dois, mas em ordem. O Curso Leitura Completa começa pela estrutura (que serve qualquer baralho) e depois aprofunda o sistema escolhido pelo aluno, com material específico para Marselha e para RWS. Quem queira ver o programa, encontra-o em Cursos.
Escolha um. Trate-o bem. Volte ao outro quando o primeiro já não tiver segredos. A pergunta de partida desaparece sozinha.