São cinquenta e seis. Os Arcanos Menores, distribuídos por quatro naipes de catorze cartas cada, são a maior parte do baralho e a parte que mais cedo se ignora. Quem aprende por listas memoriza vinte e dois Maiores com cuidado e despacha os Menores em três tardes, com palavras-chave coladas à carta como autocolantes a um frigorífico. O resultado é previsível: cinquenta e seis cartas que aparecem em todas as tiragens e que ninguém sabe ler. Vale a pena fazer o caminho ao contrário. Perceber a lógica dos naipes, naipe por naipe e número por número, é o que destrava a leitura inteira.
Do baralho de jogar aos Arcanos Menores
Os quatro naipes não são invenção do tarot. Vêm dos baralhos mamelucos do Egipto, atestados num exemplar quase completo conservado no Topkapi Sarayi de Istambul, datado por volta de 1400. Os naipes mamelucos eram tūmān (taças), darāhim (moedas), suyūf (espadas) e jawkān (paus de pólo). Chegam à Europa pela Espanha muçulmana no final do século XIV. Há proibições de jogos de cartas em cidades como Florença, Berna e Paris a partir da década de 1370, prova indireta de que já tinham chegado. Os italianos adaptam-nos. Taças, moedas, espadas e paus tornam-se Copas, Ouros, Espadas e Paus, e nesta forma estabilizam-se por toda a Europa do sul.
Quando, em Milão por volta de 1440, alguém acrescenta vinte e dois trunfos a um baralho de quatro naipes para inventar o jogo dos trionfi, o que faz é juntar uma série superior a um baralho de jogo pré-existente. Os Arcanos Menores são, em rigor, o baralho de jogar comum sobre o qual o tarot foi construído. Esta ordem importa. Os Menores precedem os Maiores. E é por isso que continuam, séculos depois, a funcionar como camada base.
Quatro naipes, quatro categorias sociais
No imaginário medieval, os quatro naipes têm correspondência social bastante clara. Ouros são o naipe da moeda, da troca, da circulação dos bens. Pertencem aos mercadores, ao dinheiro como objeto. Copas são vasos litúrgicos, o cálice da eucaristia, mas também a taça do banquete: estão associadas ao clero e à vida interior, ao que se bebe e ao que se sente. Espadas são a arma da nobreza guerreira, símbolo de jurisdição e de poder cortante: pertencem aos cavaleiros, à decisão, à palavra que separa. Paus, no original italiano bastoni, são instrumentos de trabalho, varas, paus de pólo no original mameluco mas no contexto europeu mais próximos do cajado, do trabalho rural: associam-se aos camponeses, ao gesto produtivo, à iniciativa.
Esta leitura é medieval e não esotérica. Quem ler a literatura cavalaresca do XV reconhece-a sem dificuldade: a quadripartição do corpo social em oratores, bellatores, laboratores (clero, guerreiros, trabalhadores), com a casta mercantil a abrir caminho a partir do XIV, encaixa quase ponto por ponto. O tarot não inventou esta divisão. Herdou-a do quadro mental em que nasceu.
A atribuição elemental veio depois
Quase qualquer livro contemporâneo de tarot atribui aos quatro naipes os quatro elementos clássicos: Ouros para Terra, Copas para Água, Espadas para Ar, Paus para Fogo. Esta correspondência é tão repetida que parece imemorial. Não é. Foi fixada pela Hermetic Order of the Golden Dawn em Londres, no final do século XIX, e teorizada sobretudo por Samuel Liddell MacGregor Mathers, com base em correspondências cabalísticas e na Picatrix medieval. Antes disso, a literatura francesa do XVIII (Court de Gébelin, Etteilla) propôs atribuições parciais, frequentemente em desacordo entre si. A Golden Dawn estabilizou o sistema. O Rider-Waite-Smith de 1909 herda-o. O Thoth de Crowley em 1944 herda-o. Hoje é o consenso. Mas é consenso recente, de pouco mais de cento e trinta anos.
Isto não invalida a atribuição. Funciona, é internamente coerente, organiza a leitura. O que se exige é honestidade: usar Terra/Água/Ar/Fogo nos naipes sem esconder que se está a aplicar uma chave do final do XIX a um baralho de meados do XV. Quem ensina o tarot como se a atribuição elemental fosse contemporânea das primeiras cartas mamelucas está, ainda que sem saber, a repetir o gesto de Court de Gébelin. Projeta o sistema sobre o objeto e jura que sempre lá esteve.
A progressão numérica (Ás → Dez)
Dentro de cada naipe, dez cartas numeradas formam uma sequência. Quem aprende por listas decora as dez separadamente. Quem aprende por estrutura percebe que se trata de uma única curva, repetida quatro vezes, com a textura de cada naipe a colorir cada passo.
O Ás é a origem pura do naipe, a presença do princípio antes de qualquer desdobramento. Dois é o desdobramento, a primeira relação, a dualidade. Três introduz o terceiro termo e fecha a primeira ideia coerente: forma. Quatro é a estabilização, a estrutura quadrangular, a consolidação. Cinco é a quebra no meio do processo, a crise, o desequilíbrio que rompe a estabilidade do quatro. Seis recompõe num plano mais alto: retorno, harmonia conquistada. Sete introduz a interioridade, a prova, o teste da harmonia recém-conquistada. Oito é a aceleração, a mecânica, o movimento que se torna eficaz. Nove é o limite quase pleno, a conclusão em vista mas ainda contida. Dez é a conclusão e simultaneamente o excesso, a forma que se cumpre e começa a transbordar.
Este esquema deve quase tudo ao pitagorismo de leitura modernizada que Papus e a Golden Dawn projetaram sobre os pips no final do século XIX. No baralho italiano original, os números eram valores de naipe para efeitos de jogo, nada mais. Reconhecer isto não desqualifica o esquema. Torna-o utilizável com consciência: é uma gramática interpretativa coerente, posterior ao baralho, que funciona porque a curva 1–10 é suficientemente arquetípica para se aplicar a qualquer série finita. Use-a sabendo o que é.
As figuras de corte
Cada naipe tem quatro figuras: Valete, Cavaleiro, Rainha, Rei (no baralho de Marselha; no Rider-Waite-Smith, Page, Knight, Queen, King). São dezasseis cartas no total. A tentação imediata é tratá-las como retratos: o Rei de Copas é "um homem sensível", a Rainha de Espadas é "uma mulher intelectual". Esta leitura por personalidade é frágil e produz tiragens previsíveis.
A leitura útil trata as figuras de corte como quatro modos de relação com o elemento do naipe. O Valete é o modo iniciático, aprendiz, que descobre o naipe pela primeira vez. O Cavaleiro é o modo ativo, em movimento, que leva o naipe pelo mundo. A Rainha é o modo interior, contemplativo, que medeia o naipe a partir de dentro. O Rei é o modo soberano, exterior, que governa o naipe no domínio público. Não são quatro pessoas. São quatro posturas, aplicáveis a qualquer consultante de qualquer género, em qualquer momento da vida.
Como usar isto na leitura
Pegue numa carta qualquer e derive-a a partir do naipe e do número. Exemplo concreto: Cinco de Copas. Naipe das Copas: vida interior, afeto, água, o que se sente e o que se bebe. Cinco: crise no meio do processo, quebra da estabilidade do quatro. Junte. Uma quebra emocional no meio de algo que parecia consolidado. Uma perda afetiva que não termina o processo mas o destabiliza. Pamela Colman Smith, em 1909, ilustrou exatamente isto: uma figura encapuçada de costas, três taças entornadas no chão, duas taças ainda de pé que a figura não vê. A imagem é narrativa. A estrutura era anterior. Pamela leu a estrutura e tornou-a cena.
Outro exemplo: Oito de Paus. Naipe dos Paus: trabalho, iniciativa, fogo, gesto que produz. Oito: aceleração, mecânica, movimento eficaz. Junte. Iniciativas múltiplas a moverem-se em paralelo, a velocidade do que está bem encaminhado. Pamela ilustra oito bastões em voo no ar, num campo aberto. Mais uma vez, a cena traduz a equação número + naipe. Sem ela, ficaria literal: "oito paus no ar".
Faça este exercício para cada uma das cinquenta e seis cartas. Demora. É a maneira de transformar uma lista que se esquece numa lógica que não se esquece. Sobre porque esta abordagem rende mais do que memorizar listas, escrevemos noutro lugar.
"Quem souber multiplicar dez por quatro sabe ler cinquenta e seis cartas. Quem souber memorizar cinquenta e seis cartas, esquece quarenta e quatro."
Os Menores não são o irmão mais novo dos Maiores. São, em volume e em frequência, o corpo principal da leitura. Os Maiores impõem moldura, os Menores narram o quotidiano. Quem domina os Menores faz leituras de detalhe; quem só sabe Maiores faz leituras de tipo grande angular permanente, e perde o que se passa por baixo.
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